"O autor descreve a viagem que realizou, em constante diálogo com os seus colaboradores, o que permite ao leitor desde diário compreender o porquê do pormenor das construções e o sentido poético que respiram e, simultaneamente, entender que essas construções são parte integrante da grandiosa paisagem que o rio percorre e a que dá alma e de que recebe a razão de ser." Do prefácio de Gonçalo Ribeiro Telles
Recentemente publicado pela Casa do Sul Editora e pelo Centro de História da Arte da Universidade de Évora, o livro Rio Côa – A Arte da Água e da Pedra documenta uma viagem de investigação realizada a pé, ao longo do rio, pelo professor Nuno de Mendoça e os seus alunos de Arquitectura Paisagista. Este primeiro volume que agora é dado a conhecer ao público cobre o troço da nascente ao Moinho da Ervaginha, a poente de Vale de Espinho. É um livro que respira do melhor que pode existir no espírito académico, movido pelo desejo de sair para o terreno ao encontro dos sinais da presença humana de outrora, nos vales e no leito do rio. Sustentando-se numa metodologia criteriosa de observação e análise somos apresentados a uma paisagem notável onde se foram estabelecendo os sinais da acção do homem, num diálogo com uma ruralidade carregada de saber arcaico. A viagem leva-nos a descobrir antigas presas, muros, diques, registados com fotografias e um denso trabalho de desenho de grande qualidade artística e conteúdo interpretativo. O relato da jornada é cheio de surpresas. Entre avanços e paragens descobrimos pequenos povoados e aldeias, documentando-se a sua relação com o rio; o casario na meia encosta abrigada dos ventos, o moinho mais abaixo e as áreas mais férteis junto ao leito. Por vezes laboriosos sistemas de rega desenham a paisagem; noutras somos confrontados com um cuidadoso trabalho de arte da pedra usado na consolidação das margens. O relato da jornada faz-se acompanhar de observações e registos de diálogo com as gentes locais. Confronta-nos por vezes com reflexões sobre o território percorrido e as transformações que vem sofrendo; o fino balanço entre a natureza e a introdução abrupta de processos que lhe são hostis. É também um livro sobre a perda de uma memória e a urgência de a recuperar, em prejuízo de formas de património menos fáceis de classificar mas profundamente entranhadas no saber que conduziu a nossa acção durante séculos. O trabalho coordenado por Nuno de Mendoça demonstra o delicado equilíbrio entre arte e ciência; entre a leitura técnica dos locais e dos processos que os constituiram, e uma visão alargada, poética, do sábio entendimento da paisagem e do lugar que nela ocupou o homem. É um daqueles livros que merece ser descoberto, fazendo regressar a um saber mais vasto outras formas de saber que devemos, a todo o custo, preservar. |